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EPOSÓDIO CULTURAL

15/10/2008 GMT 1

A CARTA DE SEVERINO

tarokid2003 @ 04:56

A CARTA DE SEVERINOA Carta de Severino

Severino é mais um de tantos nordestinos, que deixam o sertão em busca de uma vida mais digna nas grandes cidades. Como os outros, Severino sonhava em construir uma nova vida em São Paulo, onde viveria em uma casinha confortável, com água encanada, onde não precisaria percorrer grandes distâncias para conseguir um pouco de água. Mas quando chega à metrópole, a estória é bem diferente. É o que nos conta Severino na carta a sua mãe Francisquinha:

São Paulo, 07 de outubro de 2007

Mainha.
Aqui é Severino teu fio qui tá iscreinhanu pá conta os apertu qui tô passanu im Sãu Paulu. Pá cumeça, assim que cheguei fui robadu! Mainha, levaru minha troxinha di rôpa, só fico a rôpa du corpu. Cumecei a procura serviçu, mais num cunsegui nadinha. Fui andanu pela noiti e vi munta disgracera, era genti robanu genti, um punhadu di rapariga si oferecenu pus cabra da pesti que passava nus carrãu. Uns mininu machu cheranu uma coisa isquisita pá drumi e num sinti fome.
E falando nela, qui saudadi da tua buchada de bodi mainha! Aqui nem jirimum eis dá de graça. Dispois dum tempu, druminu di baxu da lua, venu us prédiu furanu u céu. Vi munta coisa trapaiada, mainha, a sinhora nun vai aquerditá: a água qui nóis tantu luta pá cunsigui e temu qui anda um punhadu di hora pá busca, aqui eis joga na rua, lava us carru e us cachorru, e nóis cá seca nu sertãu. Num é di dá dó mainha?
Será qui ninguém sabi dus apertu qui nóis passa nu sertãu, sem um pingu di chuva, sem água até pá bebê? E eu fiquei sabenu ainda mainha, qui o povu daqui toma um monti de banhu nu dia e tudu demoradu. E agora ovi dizê qui a água vai acaba pur ausa dessa gastança. Mas eu ovi uma música que diz que o sertãu vai virá mar e u mar vai virá sertãu. É purissu qui eu quero voltá pá nossa terra purque a água ta inu praí.
Mainha, só cunsegui escrevinhá essa carta pur causa duns cabra bão dum lugá qui chama albergui qui mi deru cumida, banhu e qui vai mi ajudá a voltá pá casa.
A bençãu mainha di teu fio Severino.

Severino, de fato, conseguiu voltar para o sertão. Decepcionado com a cidade grande, ele passa a dar mais valor à sua terra e a pouca água que eles ainda têm. E passar a lutar por uma vida mais digna junto a seu povo.

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