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EPOSÓDIO CULTURAL

07/12/2007 GMT 1

O HOMEM FEIO (crônica)

tarokid2003 @ 02:08

Crônica
Título: O Homem Feio
Autor: Sérgio Ricardo

O HOMEM FEIO

Vila Nova Esperança, uma pacata cidade de não mais de dez mil habitantes. Onde todos se conhecem e, muitas vezes são conhecidos como referência, exemplo: Paulo é filho do Jorge que é dono da padaria, assim as pessoas o chamam o Paulo do Jorge.
Sebastião, mais conhecido como Tiãozinho da chicota; referência de sua mãe uma vereadora muita conhecida e respeitada.
Tudo em sua vida estava bem, o relacionamento com seus fregueses, em seu comércio, uma casa de materiais de construção. Mas um fato o deixava profundamente triste. Era também referência como o homem mais feio da cidade, ganhando disparado do segundo colocado.
Já fim de tarde de um dia comum e rotineiro, para as pessoas comuns. Para Tiãozinho um dia tenso, infeliz. Já hora de fechar o estabelecimento, chega de última hora um cliente, nome: Osvaldo, o gari da cidade, muito conhecido pelo bom humor e pelas piadinhas debochadas.
– Grande Tiãozinho!!! Como vai?
– Bem. Em que posso ser útil?
– Quero uma torneira.
Tiãozinho embala a peça, entrega e dá um sorriso hospitaleiro de comerciante carismático.
– Obrigado pela preferência.
– Você sabe que só compro aqui. Nem se for mais caro que os seus concorrentes. Sabe por quê?
– Por que você é bem tratado. Não é?
– Nada disso. É que olhando para você, me sinto o homem mais lindo do mundo. Não é possível que você seja feio de natureza. Acho que você está do lado do avesso e se esqueceu de desvirar.
Termina de falar e sai às gargalhadas.
Tiãozinho sempre levou os comentários sobre sua feiúra na esportiva. Mas naquele momento fica paralisado. Solitário dentro de seu estabelecimento. Olha para o nada com uma decepção aparente na face, descontentamento, foi como se uma única gota de água caísse dentro de um copo cheio e transbordasse uma explosão interior. Foi como um chega!
Fecha o estabelecimento, entra em seu fusca. Pára, pensa e repensa; resolve não ir para casa, como sempre o faz. Sai estrada afora, sem destino; passa por diversas cidades do interior. A noite cai, já 150 km longe de casa. Avista uma placa na estrada: Vila Formosa a 2 km. Nunca havia sequer ouvido o nome daquela cidade, mas resolve entrar. Logo avista não uma cidade, mas um vilarejo. Não precisou acelerar muito o seu fusquinha, e, já estava na última rua.
Pára e vê um barzinho rústico, resolve entrar, olha a meia dúzia de fregueses. Encosta-se ao fundo do balcão e pede uma cerveja, logo duas, cinco. Deprimido e com o efeito sugestível do álcool, começa a lembrar das piadinhas referentes à sua feiúra. “Você é feio assim mesmo ou chupou limão?”. “Tira a máscara, o dia das bruxas já acabou”...
Seus olhos se enchem de lágrimas, logo desaba a chorar e chora, chora... Como uma criança.
Um senhor de meia idade chega próximo.
– Por que está chorado?
– Sou muito feio.
– Só por isso!
– Todo mundo diz que eu sou feio.
– Não, é não rapaz.
– Eu sei que eu sou.
– Fica triste não. – Dá mais uma cerveja para o rapaz aqui, é por minha conta.
– Obrigado senhor pela gentileza. Mas eu sei que sou o homem mais feio do mundo.
– Oh! Vou te contar uma coisa que vai te deixar feliz.
– O que?
– Tem uma cidade longe daqui chamada Vila Nova Esperança...
– O quê que tem!
– Lá tem um homem chamado Tiãozinho da Chicota, eu nunca o vi, mais a fama dele corre até estes lados, dizem que é feio que até dói.
Ao ouvir Tiãozinho da Chicota, Chora soluçado. O senhor olha para o balconista do bar e diz.
– O que foi que eu falei demais!

Sérgio Ricardo é escritor

Comentários

Um Comentário »

  1. uahuhuhuahauhauhauhauhau

    Muito bom!!!

    Comecei o texto quase chorando e acabei rindo até!

    Você é muito bom escritor!

    thomas | 12-02-2009 - 22:57:56 GMT 1 #

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