CONSCIÊNCIA NEGRA
No dia 20 novembro comemorara-se em todo o país o Dia Nacional da Consciência Negra. Um dia dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira e para lembrar sua resistência à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte forçado de africanos para o solo brasileiro em 1534. A data foi escolhida pela entidade Movimento Negro (o maior do gênero no país) por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmaresem 1695, um dos heróis que escreveu, com a própria vida, a história do povo brasileiro, na luta por ideais grandiosos, tais como o fim da escravidão, igualdade e justiça social.
O Quilombo dos Palmares é um dos principais símbolos da resistência negra na época da escravidão, também conhecido por Angola Janga, que significa Angola Pequena. Localizava-se na Serra da Barriga, atual Estado de Alagoas, local de grandes plantações de cana-de-açúcar. Durante cem anos (1595-1695), Palmares constituiu um foco de resistência aos ataques da Coroa, conseguindo também ter uma vida social extremamente organizada, chegando a contar, em 1640, segundo os holandeses, quase dez mil quilombolas. Era de interesse dos grandes latifundiários aniquilar Palmares, para tentar recuperar escravos e para evitar que, tendo Palmares como referência, os escravos tivessem maior motivação para a fuga. Para Zumbi, o mais importante não era viver livre, mas libertar todos os negros ainda escravos...Entidades como o Movimento Negro organizam palestras e eventos educativos, visando principalmente crianças negras para evitar o desenvolvimento do autoprecoceito(inferiorizarão perante a sociedade).
Outros temas debatidos pelo Movimento e que ganham evidência no 20 de novembro são: inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, modae beleza negra, etc. O dia é celebrado desde a década de 1970 <>, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos; até então, a comunidade negra precisava se contentar com o dia 13 de maio (Abolição da Escravatura), comemoração que tem sido rejeitada por enfatizar muitas vezes a "generosidade" da princesa Isabel, ou seja, ser uma celebração da atitude de uma branca.
Nei Lopes, compositor e um dos maiores estudiosos da História do povo negro no Brasil, afirma “A sociedade brasileira põe na nossa cabeça que nós somos inferiores, porque nossos antepassados foram escravos enquanto os donos do poder foram senhores”. Há razões históricas para isso: a Abolição foi feita de qualquer maneira e não teve medidas que a complementasse. A sociedade de então optou claramente por branquear a nação pela imigração européia e jogou os recém libertos, literalmente, no lixo. Em geral, a pessoa é levada desde criança a ter idéias e atitudes preconceituosas, por viverem numa sociedade em que predominam valores racistas. Só através da Educação Fundamental, com uma revisão completa da História, e por meio de ações governamentais é que poderemos prevenir tudo isso”.
Os Movimentos: Na Guerra entre Brasil e Paraguai, muita escravos que participaram pereceram. Foi nesse período que os ideais abolicionistas incentivaram o surgimento de associações que visavam o fim da escravatura, conseguindo dinheiro para libertar escravos, ou mesmo facilitando as suas fugas. O maestro Carlos Gomes, durante um concerto, conseguiu arrecadar uma boa quantia em dinheiro para a libertação de um escravo... Os ideais de Zumbi que influenciaram os abolicionistas foram as sementes que geminaram várias instituições que lutam por uma sociedade onde o indivíduo não seja discriminado por sua cor ou credo. Uma delas, o Núcleo Cultural de Integração Racial, estabelecido em Machado (MG), inicialmente, era uma parte das comemorações do dia 13 de maio (Abolição) e 20 de novembro (Consciência Negra). A idéia de torná-lo mais evidente às propostas iniciadas pelo antigo Conselho Negro, levaram Micheli Cruz (atual presidente), Paulo César de Souza (Cesinha), Oclísia de Paula Silva e Alice – pessoas engajadas na luta pela igualdade –, a instituir uma nova associação. “O Núcleo veio para integrar a todos (negros, brancos e índios) a um único objetivo: o fim da desigualdade social. Não como um decreto, mas sim, pela consciência humana”, disse César que depois, foi às rádios locais para explicar as metas do Núcleo.
Ao despedir-se convidou a todas as classes sociais (empresários, intelectuais e gente do povo) a abraçarem a causa. Entre os eventos que o Núcleo vem promovendo estão os Festcoms, que são encontros de entidades (grupos de dança, Rap; poesia & manifestos), e as Missas Afros, realizadas na Igreja de São Benedito, pelo padre José Hamilton. As pessoas participam vestidas a caráter (de turbante e roupas coloridas). Durante a liturgia, elas cantam e dançam ao som do mais antigo ritmo trazido pelos africanos, o batuque. Todavia, em 1988, o Conselho Negro já realizava essas missas sob a direção das Sras. Marcolina, Fátima (ex-presidente da Associação dos Congadeiros), a Prof.ª Maria Zilda (falecida) e Fátima (do Zé Príncipe). Em 2006, com a ajuda do Prof. Toninho Fernandes, o Núcleo pode homenagear um lustre machadense que há anos está engajado nas artes e religião, o Sr. Warner de Paula Lima (do Auto Elétrico Wape).
Outro detalhe que precisa ser esclarecido é que, o Núcleo, não pede dinheiro à Secretaria de Educação e Cultura, mas sim, matérias que visam à realização de seus projetos: cartolinas, bexigas, papel sulfite, tecido e aparelhagem de som. Muitas vezes o material que sobra é devolvido à Secretaria, ou doado às escolas. O Núcleo agradece o apoio imensurável do Prof. José Vítor e, principalmente, da Associação dos Congadeiros, que durante a antiga gestão de Fátima, quanto na atual, presidida por Arnaldo (o Nadu), nunca deixaram de apoiá-lo. Contatos: Micheli Cruz (35) 3295-6954 (Machado/MG).
“O negro é vivo. Ele tem o poder para mudar” (César)
“Para conseguir uma vaga no comércio de Machado, o negro precisa ter currículo europeu” (Oclísia)
“Nas escolas, desde o Pré, não ensinam as crianças que brancos, negros e índios são todos iguais” (Micheli)
“Gosto de estar na luta. Não há outra forma de lutar se não pelo Direito” (Micheli)
“Povo que não tem educação é povo alienado. E povo alienado dá voto fácil” (Oclísia)
“O importante não é ceder apenas 2% de cotas nas universidades para negros e índios. O importante é melhorar a Educação, capacitando o professor para que brancos, negros e índios tenham uma boa base para ingressar na faculdade” (César)
“O negro tem preconceito de si mesmo”. Essa frase em si reflete o racismo velado de uma sociedade negligente e burguesa”. (Agamenon Troyan)
Fonte: www.mundonegro.com.br